terça-feira, 1 de julho de 2014

Dores

Caso este que conto
É um cordel da vida
Pode ser um confronto
Num beco sem saída

A briga daquele par,
Longe de comédia,
Foi uma tragédia
Então vamos apressar.

Certa feita, Dores viu
Em abraços seu amor
Em beijos o seu viril
Em prantos caiu o terror

Pensou alguns segundos:
Um final terei que dar
Talvez fugir ou matar
Ou deixá-los moribundos.

Gasolina e fogo
Esperando a hora
Em meio ao seu rogo
Para queimar a caipora

Foi durante o coito
Que começaram arder
Os fluídos a ferver
Suas idades: dezoito.

Dores arrependida
Procurou a igreja
De alma carcomida
Ordem de deus, seja.

Para ser perdoada
Rezar ela tería
Trinta ave-Marias
E vinte açoitadas.

O padre incrédulo
Pensou em sacanear
Pensou em algo sédulo
Mais que álgebra linear.

Mandou Dores escrever
Os nomes dos falecidos
Em mil muros coloridos
Para pecados absolver.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Adeus, Fauzer.

Fauzer, meu amor.

Te escrevo esta última carta. Nestas minhas últimas palavras eu quero deixar claro que sempre te amei. Sempre fui apaixonada pelo teu sorriso e pela maioria das palavras que um dia me disseste. Sempre tu foste um grande homem na minha vida e me fizeste sentir a mulher mais completa que viveu sobre a Terra, especialmente depois que me permitiste ser a mãe do nosso filho Mohsen e da nossa filha Beatriz, que já estão tão grandes e chegando à puberdade, tão saudáveis. Fauzer, esperei tanto tempo por este momento que não poderei deixar passar nem sequer mais um dia de minha vida. Vida, meu amor, tu sabes o que é vida? Eu tenho a melhor definição do que não é. É o que sou há muito tempo, Fauzer. Há muito eu apenas sobrevivo, perambulo na tênue linha que separa o apenas existir do viver. Por isso esperei até hoje. Esperei o momento certo para me despedir de ti e das crianças, pois não aguento mais. Dia após dia eu sinto o gosto de sangue em minha boca quando tu chegas embriagado em casa, e calada eu suporto essa situação por causa do Moh e da Bea, e se não fosse por eles isso já teria chegado ao fim. Onde ficou o grande homem da minha vida que tu foste um dia? Fauzer, entendas que chega um instante que uma gota é suficiente para transbordar até a maior das vasilhas. E essa gota não foi nenhuma das milhares que derramei no travesseiro antes de dormir, nem as de suor que saíram da minha pele durante as fracassadas tentativas de me defender. Meu amor, te deixo os nossos filhos e, de coração, te peço que os cuide melhor do que tu me cuidaste.

Com amor,

Berenice.



- Não seja imbecil, Berenice - pensou ela. - Poderei aguentar mais tempo com ele, pelos meus filhos. O que resta da minha vida é para eles.

E ela rasgou a carta molhada de lágrimas e a jogou na pequena cesta de lixo do quarto.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Brinquedos improvisados

Era uma latinha vazia, que ainda tinha um pouco do que transbordou da última colherada do achocolatado, enrolado em um papel de cor vermelho-Ferrari. Era, também, quatro tampinhas velhas de refrigerante, cada uma com um pequena gota de cola, fixadas em quatro pontos paralelos. Ao fundo dessa lata, um pequeno cordão a unia a uma caixa de leite, agora vazia, revestida por um papel branco, com as quatro tampinhas estrategicamente posicionadas. Esse era o trenzinho de Luis. Luis morava na periferia de uma grande cidade, e não era nenhum cartão postal. Ele tinha apenas sete anos. Seu sorriso não era improvisado como seus brinquedos, aliás, ele quase não tinha sorrisos. Predominava em seu rosto uma inexpressão característica de muitas outras crianças de sete anos de idade, de outros "Luíses". Em seus olhos podíamos ver a simplicidade como vivia a vida, a angústia de um futuro incerto e a desesperança de dias melhores. Improvisava as suas brincadeiras para tentar aliviar sua dor. Levava uma vida improvisada por não saber o que seria de amanhã, e sua única certeza era de que seu caráter era imutável.

sábado, 23 de novembro de 2013

Sonho

Sonha aquele que sabe dançar
as músicas de quem ama e arrisca
os passos de quem se deixa amar. 

Sonha aquele que, sorrindo, deixa
esparramar mais aquarelas de riso
do que óleo sobre tela.

Sonha aquele que chora em calmaria
os trovões e tempestades e aguenta
a dor abrasadora das estiagens.

Sonha aquele que anda a passos curtos
e com o pensamento leviano em
harmonia com suas virtudes.

Sonha aquele que não vê idade
nem tempo e perambula graciosamente
em sua juventude perene.

Sonha aquele que nunca guardou
doces afagos e beijos febris
de lábios alheios.

Sonha aquele que jamais deixa
de lado seus delírios em troca
de qualquer lucidez.

Sonha aquele que deseja viver
em paz e vive aquele que
ainda consegue sonhar.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Entre reis e náuseas.

Aprendi que na Medicina devemos sempre ser próximos do paciente. Aprendi em Cuba. Aprendi isso entre outros valores que são resistentes ao contato vil com o que geralmente vemos na realidade do nosso meio. Ser próximo fisicamente, que no caso de um ato tão comum da prática médica cubana como é manter a cadeira do paciente ao lado da mesa do atendimento para, assim, reduzir a distância entre ambas partes, e que agora, no nosso meio, é algo chamado de "método diferente". Distância essa que quando reduzida pode aliviar dores, angústias e preocupações, uma vez que o paciente muitas vezes procura um médico apenas para ser ouvido, e outras tantas vezes nem isso obtém. Distância física que, quando reduzida, consegue, por vezes, acalentar o coração necessitado com o respeito que este merece.

Devemos ser próximos do paciente. Próximos, também, socialmente, para que não sejamos apenas mais um médico em sua vida, mas que sejamos vistos como um amigo em que se pode confiar os maiores segredos e intimidades. Para que o abismo criado pela sociedade entre médico e paciente se reduza a nada, e para que o médico não seja visto como rei e o paciente não seja visto como apenas "o próximo" da fila. A proximidade social deve levar em consideração a empatia, a atenção, e a identificação da melhor forma de se comunicar com a pessoa em questão, para ninguém se sentir melhor ou pior pessoa que a outra. Ninguém vale mais que ninguém por possuir um curso, um diploma, ou saber um idioma a mais ou a menos que o outro. Nenhum "rei de camarote" vale mais que uma empregada doméstica. Aliás, reis de camarote me fazem vomitar.

Gosto das coisas simples e gosto de gente simples. Gente que consegue encontrar alegria onde só há luto, e assim mesmo consegue ver luz no fim do túnel. Não gosto de gente que se acha importante ou gente que se orgulha em dizer frequentar uma igreja mas vira a cara para o mendigo.

Às pessoas que criticam Cuba e dizem que é um lugar ruim, eu digo: é sim. Cuba é um lugar ruim. É ruim porque faz a gente ficar com saudade.

Sou muito mais feijão com arroz do que caviar. E nunca comi caviar.

domingo, 29 de setembro de 2013

Ele ɇ ela.


Seriam ele e ela.
Ele dela e ela dele.
Eles deles mesmos.
Eles para eles.

Mas nunca foram eles.
Foi ele.
E foi ela.
Se foram.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Saltimbancos

Acrobata, que tanto se equilibra em harmonia
Pule desse trapézio que já é pequeno demais
Para caberem todos os seus sonhos teatrais
E, assim, deixe-se navegar nesse mar de calmaria

Você, bailarina, que faz suas piruetas macias
Rasgue a roupa apertada para que não lhe prenda
Escolha uma sapatilha que o fogo lhe acenda
E voe, misture-se com o ar que lhe traz ousadias.

Malabarista, você que lança tanta sorte às alturas
Pare de alternar em seu rosto a alegria e a tristeza
Porque enquanto uma é coragem, a outra é incerteza
E um dia, talvez, seus sorrisos serão nossas loucuras.

Vá, palhaço, coloque seu nariz e vista sua peruca
Sinta por dentro a felicidade que aparenta agora
Já que atrás da sua maquiagem o choro lhe devora
E esqueça toda essa coisa que mais lhe machuca.

Todos vocês, saltimbancos desses grandes picadeiros,
Façam de suas vidas espetáculos majestosos
Que não faltem gestos audaciosamente amorosos
E então permanecerão vivos os artistas verdadeiros.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Descuido

vem cá
pra cá
pra cama
sem pressa
pra essa
peça e
me beija
depois
me deixa
agora
vai lá
pra lá
e saia
bem quieta
e ama
e se
completa.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Silêncios


Todas as coisas que são ditas dentro do teu silêncio me inquietam,
Assim como a distância que separa os meus braços dos teus abraços,
E esta incerteza de que se voltarei a olhar dentro dos teus olhos,
Ou se minha pele tocará novamente tua pele, definitivamente me inquietam.

E se nossos olhares se encontrarem em alguma tarde cinza, meu amor
Desejo que o tempo pare para eu te contar todas as coisas que sinto
E irei me dissolver em versos porque tu és a personificação da poesia,
Então a tarde se transformará em eternidade e o cinza em raios de sol.

Não tenhas medo, meu amor, pois o amor que sinto é suave e sincero
E se meus olhos tocarem os teus olhos e meus lábios tocarem os teus lábios
E quando nossos suspiros se confundirem e se combinarem, e forem apenas um
Eu estaria submerso em uma absoluta felicidade que me faria mais vivo.

Cada beijo dado será um mergulho na tua alma e meu colo será teu refúgio
Porque minha alegria completará tua alegria e tua ternura completará minha ternura
Nossos medos deixarão de ser medos porque um será a coragem do outro
E todo o nosso silêncio será preenchido com versos serenos, mesmo se pequenos.

sábado, 10 de agosto de 2013

Minha música

Se eu soubesse algum acorde
Se eu soubesse de pintura
E se eu soubesse de escultura
Te esculpiria uma canção dedilhada sobre uma tela.

Uma canção que falasse teu nome
Com um refrão que espalhasse teu cheiro
E um solo modelado com teu corpo
Dentro de uma moldura feita de mim.